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Ainda é incompreensível que no esporte bretão (dois clichês até agora) o gol de mão seja considerado a mais grave ofensa ao desporto. Numa prática onde os 22 jogadores empenham-se 90 minutos em dissimular, cavar faltas, puxar a camisa dos adversários, agredir gratuitamente, andar um pouquinho na barreira e cobrar laterais e faltas de lugares indevidos – todas jogadas que podem resultar em tento – não soa razoável que a infração cometida com as mãos seja considerada mais feia do que encoxar a mãe no tanque. Quem, afinal de contas, foi o responsável por esta escala?

Em tempos de Copa, surge um certo nacionalismo exacerbado em determinados setores da sociedade. Nos âmbito dos mais espertos, tal não ocorre sem razão de ser: eles lucram com a copa. São emissoras como a Globo, que afirmam explicitamente que o seu esporte é torcer pelo Brasil, são estabelecimentos comerciais que ficam decorados com as cafoníssimas bandeirolas e lojas que aproveitam o clima festivo para oferecem uma goleada de preços baixos. No âmbito dos imbecis, restam os que crêem que torcer por uma seleção de futebol é a mais pura expressão do patriotismo.

Não é preciso dizer que em ambos os casos isso é um saco. A cobertura jornalística, em sua maioria, vira uma grande palhaçada. Falo dela principalmente porque é a que tem o maior potencial de gerar idiotas: a prática do ufanismo gera a desinformação, que gera a reprodução das verdades produzidas pela imprensa “especializada”. E aí quem teve a sorte de nascer com dois neurônios a mais precisa pagar de chato e corrigir os incautos que crêem em qualquer coisa em nome da auto-vangloriação da pátria mãe.

Dos “brasileiros naturalizados estrangeiros”. Essa nacionalidade híbrida, novidadeira, criada nas redações dos periódicos e nos programas de debate esportivo, talvez seja o exemplo mais simbólico dessa megalomania futebolística da “pátria de chuteiras”. É a mais pura representação da imbecilidade. Há uma necessidade tão grande de se autoafirmar, de cativar a empolgação do público, de vender o Brasil como maior potência futebolística do Globo, que os jornalistas nos enfiam goela abaixo um orgulho de ter um compatriota fazendo bonito por uma seleção rival.

O exemplo mais recente foi o do “brasileiro naturalizado alemão” Cacau. Primeiro, intermináveis matérias com a família do “brasileiro naturalizado alemão” que vai defender a seleção germânica. Em seguida, as intermináveis entrevistas com o próprio “brasileiro naturalizado alemão”. Na narrativa da partida, a interminável repetição de que o “brasileiro naturalizado alemão” está no aquecimento, preparando-se para entrar. Por fim, o mais sonoro grito de gol da partida: o do genial “brasileiro naturalizado alemão”. Diabos! Vão ser babacas assim lá na puta que os pariu!

Amigos jornalistas que repetem incessantemente, deixe-me vos lembrar de uma coisa: Cacau não é brasileiro. É alemão. Ao adquirir a cidadania alemã, lembrem-se de que ele abdicou da nacionalidade brasileira. Como determina, vejam só que absurdo!, a Constituição Federal. E ele não se orgulha tanto assim do Brasil como vocês se orgulham dele por aqui ter nascido. E não se naturalizou alemão só para defender a DFB, como vocês também tem nos induzido a pensar.

Várias outras vezes ainda vamos escutar nessa Copa do Mundo que o “brasileiro naturalizado estrangeiro” Fulano marcou um gol. Ou fez uma partidaça, sendo um orgulho para o Brasil. Na partida que acontece agora, entre Portugal e Costa do Marfim, já estou preparado pra escutar isso sobre pelo menos três jogadores. Só tomo cuidado na hora de passar tal informação adiante, quando dialogando com alguém que tenha algum senso crítico. Senão acabo fazendo papel de idiota. Você também.