Parece que é uma onda súbita de vergonha que atinge a classe trabalhadora desse paÃs. Ninguém quer ter a profissão que realmente tem. Pera, reformulando. Porque não querer ter a profissão que tem é comum até demais, desde que você não seja o Eike Batista. O que as pessoas não querem é que a profissão que elas têm sejam chamadas pelos… seus respectivos nomes.
Se tu vais numa agência de turismo, o rapaz te entrega um cartão profissional com a devida identificação: consultor de vendas. Claro. É que ele vai te prestar uma consulta que será fundamental para a compra daquele pacote para Punta Cana. Na imobiliária, todos são consultores imobiliários. Sabe quando você compra aquele apartamento fantástico? Não foi na mão de um corretor.  Tu seguiste o conselho do maravilhoso consultor. A comissão dele, é claro, não passa de uma contrapartida à s geniais consultas respondidas com pareceres bem fundamentados em termos como “frente para o poente”, “excelente ventilação” e “vista permanente para o mar”.
No salão já não há mais cabeleireiros. Temos hair stylists e designer de sobrancelhas. Afora o uso desnecessário do inglês no primeiro caso, tem coisa mais ridÃcula que tentar reafirmar a importância da profissão mudando o nome pelo qual é conhecida? Caso similar é o dos analistas de social media, que se já não fosse um cargo sofrÃvel em si mesmo, ainda tinha que ganhar essa nova denominação cafonÃssima. Blogs não tem mais “donos”, tem editores. Quem escreve não é mais blogueiro, é colunista. E aquele post patrocinado é publieditorial, que das denominações alternativas parece ser a mais babaca de todas. E por aà vai…
Minha postura diante disso não poderia ser outra: continuo chamando pelo nome que a pessoa não gostaria de ser chamada. Dia desses, nas Lojas Americanas, encostei na  área de eletrônicos, fucei uns três televisores por conta própria e fiz a minha escolha. Olhei ao redor, não havia ninguém para amparar este lawyer carente de televisão. Acenei para o rapaz engravatado, que certamente ocupava um cargo mais alto que os demais, e ele prontamente me atendeu.
- Não tem nenhum vendedor aqui? – perguntei já UTQ irritado, até.
- Nós não temos vendedores, senhor… – responde o engravatado com uma certa grosseria.
- Então isso quer dizer que não vou poder compr… – ele interrompe.
- …nós temos atendentes.
- Então vai lá, chama um vendedor pra mim porque tô com pressa. – respondi.