Desde que o cardeal Joseph Ratzinger assumiu a cadeira papal, em 19 de abril de 2005, que seus posicionamentos conservadores têm sido alvo de inúmeras críticas. Sobretudo em questões relativas à moral cristã, Ratzinger tem feito jus à fama de cardeal Panzer: é contrário ao uso de preservativos, ao aborto e à pesquisa com células tronco, além de pregar o retorno à celebração das missas em latim. Tais questões, ao meu ver, passam ao largo do debate um pouco mais civilizado que pode ser travado em torno de uma questão cuja resposta não é oferecida satisfatoriamente pela ciência ou pelo Cristianismo: qual a origem do real?

Em 2000, numa conferência na Universidade de Paris I, Sorbonne, o então cardeal defende espertamente a existência de uma razão autônoma, isto é, não obediente a uma verdade exterior. Depois, o cardeal denuncia o que seria, na sua opinião, a contradição das racionalidades contemporâneas (Popper): a razão não pode se furtar de pensar mesmo o irracional se não for racionalmente, isto é, através da elaboração de problemas e da utilização de métodos, restabelecendo o primado da razão contestada por ela mesma.

A defesa da autonomia da razão pelo cardeal é parte de sua estratégia de ressaltar os impasses criados pela doutrina evolucionista. Não quando esta se comporta como teoria científica, mas como uma teoria universal de todo o real. Se evolucionismo puder constituir uma teoria de todo o real, qualquer questão sobre a natureza das coisas ou acerca da existência de um ente superior, por exemplo, não serão mais necessárias (já que podem ser consideradas “pré-críticas”), ao mesmo tempo em que ter-se-á estabelecido os limites do território de investigação da razão. Caso contrário, ter-se-á garantido a possibilidade de a razão prosseguir em suas investigações para além dos limites estabelecidos, ainda que em termos filosóficos ou teológicos.

Devo concordar com Ratzinger. A regressão ad infinitum proposta pelos evolucionistas é o indício primeiro de que a razão tenta responder às questões concernentes à existência da vida a partir da superação do campo da pura pesquisa científica, remetendo-se ao campo do não observável e do não comprovável empiricamente. Noutras palavras: o irracional. Isto nos faz verificar que, de fato, a ciência ou a fé não oferecem respostas racionais acerca do princípio de todas as coisas e seus fundamentos.

O que distingue, a priori, as duas perspectivas antagônicas, é a resposta dada ao seguinte questionamento: o real nasce por acaso ou por necessidade? Se por acaso, isto é, se o real é fruto do nada que explodiu, a razão como conhecemos é um produto casual marginal do irracional e é insignificante no seu bojo. Se por necessidade, se o real é fruto de uma razão primeira, subsiste o primado do cristianismo de que “no início era o Lógos” e a noção de cristianismo como religio vera.

Vale reforçar que nenhuma destas hipóteses foram comprovadas empiricamente, a partir de métodos (consensualmente chamados de) científicos e, por conseguinte, racionais. Assim, na tentativa de explicar a origem de todas as coisas, a ciência e a fé ainda ocupam o mesmo patamar.

// post originalmente publicado em 21/04/2009