Sobre escritores excêntricos e seus hábitos

Eu, você, provavelmente sua mãe, seu pai e a sua irmã, possuimos hábitos incomuns. Além de todos os que tenho, tenho mais um: ficar observando as excentricidades de certos seres humanos. Um negócio que sempre faço é o seguinte: chego em casa, tiro a camisa, tênis, e a meia do pé direito. O pé esquerdo continua calçado até que, depois de algumas voltas pela casa, me dou conta de que a meia já está da cor de asfalto. Outro hábito incomum: sempre folheio qualquer revista de trás para frente antes de começar a ler. Eu também passaria horas sentindo o cheio de livros novos…

Tem gente (dica do @viniciuskmax) que, após abrir um Dvd, sempre cheira primeiro o disco, depois a capa, depois o disco e a capa juntos. Para em seguida guardar o plástico, com o saco da loja, e a nota fiscal. Mas isso não é privilégio somente nosso, meros mortais, que vivemos à margem da sociedade. Os famosos wannabe também possuem hábitos bem estranhos. Já ouviu falar em arrozagem virtual? Ok, deixa eu ver se consigo explicar:

Sacou? Então vamos ao que interessa. Passei alguns meses pesquisando na biblioteca pública de Nova Iorque e escolhi algumas excentricidades pra vocês.

Leon Tolstoi: abertura e sinceridade. Apesar de tudo.

Velho Tolstoi, nascido em uma família bem rica, nunca se importou com muita coisa. Na escola, foi um aluno indiferente, sendo considerado pelos seus professores como incapaz e sem vontade de aprender. Quando adulto, passou uma boa parte da sua vida jogando, bebendo, contraindo doenças venéreas e escrevendo. Escrevendo sobre guerras, principalmente. Tolstoi tinha um certo fascínio pela grande ceifadora (a.k.a. morte).

Num trecho de seu diário, ele diz:

“Eu mandava homens para a morte na guerra, lutava em duelos para assassinar os outros, perdia em jogos de cartas; desperdicei meus recursos extraídos do suor dos camponeses, castiguei-os cruelmente, desregrei-me com mulheres perdidas e enganei os homens. Mentira, roubo, adultério de todos os tipos, embriaguez, violência e assassinato… Não há um único crime que eu não tenha cometido”

Ta na cara que Leon curtia a vida adoidado. Mas só até casar com Sonya, filha de um médico, em 1862, quando Leon encontrou Deus e resolveu experimentar um período de calma e establidade. Foi durante o casamento que escreveu suas obras primas e que manufaturou a singela quantia de treze filhos.

Mas o melhor de tudo: como demonstração de carinho, abertura e sinceridade, Tolstoi, aos 34 anos de idade, na sua noite de núpcias, obrigou a sua esposa Sonya a ler os relatos detalhados em seu diário sobre suas aventuras sexuais com outras mulheres, inclusive as criadas. Pior do que isso, só se tivesse cagado na frente dela na lua de mel.

 

J. R. R. Tolkien: filólogo autoritário ou barbeiro hobbit?

Tolkien não só escreveu O Hobbit como acreditava ser o próprio:

Na verdade eu sou um Hobbit (em tudo, exceto no tamanho). Gosto de jardins, árvores e de fazendas não-mecanizadas; fumo um cachimbo e aprecio a boa comida simples (não-refrigerada), mas detesto a culinária francesa; nos dias nublados, eu gosto e até me atrevo a usar jaquetas mais chamativas. Gosto muito de cogumelos (colhidos no campo); tenho um senso de humor muito simples (que até os meus críticos apreciadores consideram tedioso); vou dormir tarde e acordo tarde (quando é possível). Não viajo muito.

O ódio de Tolkien não se limitava à culinária francesa. Ele odiava os franceses em geral. Em uma visita a Paris, quando tinha seus 20 e tantos anos, ele repudiou a “vulgaridade, tagarelice, indecência e hábito de cuspir” dos franceses.

Além de odiar os franceses e viver na terra média de corpo e alma, Tolkien tinha um estilo de direção extremamente agressivo. Para ultrapassar os demais veículos na rua principal de Oxford, Tolkien gritava “Ataque-os que eles fogem!” enquanto jogava o carro para cima dos demais. Imagine se tivesse enfrentado a Marginal Pinheiros às 18h.

Eu não sei vocês, mas é uma surpresa para mim que Tolkien tenha sido um cidadão comum (na medida do possível). Sempre o imaginei como um velhinho, no melhor estilo Gandalf, escrevendo O Senhor dos Anéis e O Hobbit com uma caneta de pena. Mas ele não passava de um filólogo em Oxford, contemporâneo a C. S. Lewis, autor d’As Crônicas de Marley Nárnia.

E falando em filologia, quando perguntado acerca do inglês estadunidense, respondeu:

É essencialmente inglês, mas depois de ter sido esfregado com uma esponja suja.

 

Lewis Carroll: obsessivo-compulsivo apaixonado por criancinhas.

O autor de Alice no país das maravilhas tinha um belo histórico médico. Ele sofria de calafrios, cistite (inflamação na bexiga), lumbago (dor na região lombar), furúnculos, eczema (irritação na pele), sinusite, artrite, pleurisia (inflamação na membrana pulmonar), diarréia, laringite, bronquite, eritema, catarro vesicular, reumatismo, nevralgia (aquela dor de choque, do cotovelo, em algum nervo por aí), insonia e dores de dente. Se colocassem lupus, sarcoidose e neurofibromitose ele seria um paciente ideal para o House.

Mas isso não o impediu de escrever uma das mais famosas histórias infantis e inspirar milhares de artistas a adentrarem a psicodelia por ele inaugurada. Pode ser, dado o seu histórico, que ele tenha utilizado uma quantidade industrial de ópio para esquecer as suas dores e, com ela, veio a sua inspiração.

Carroll escrevia livros infantis e de matemática, seu meio de transporte preferido era o triciclo, seu hobby era a fotografia e ele era louco por crianças. E adorava fotografá-las. Nuas. Ele tinha uma relação muito íntima e intensa com Alice Liddell, a criancinha que inspirou suas histórias. O relacionamento foi encerrado bruscamente e os posts do blog as folhas do diário de Carroll foram arrancadas pela sua família para evitar posteriores constrangimentos. E Carroll também se desinteressou pela fotografia. O que será que ele aprontou?

Essa versão mundo real do Willy Wonka (que nós também acreditamos que não era pedófilo – aham) era extremamente metódico. Quando partia em qualquer viagem, traçava o roteiro e fazia estimativa do tempo que levaria para completá-lo, junto com os cálculos acerca do dinheiro necessário para passagens, gorjetas, carregadores e comprar comida ou bebida. No seu chá, as folhas descansavam na água por exatos 10 minutos, nem mais, nem menos. Não satisfeito, Carroll impunha sua mania por ordem aos outros. Quando ia receber convidados em um jantar, mapeava todos os lugares e registrava no seu blog diário o que cada um dos convidados comeu. Na biblioteca que frequentava, sugeriu uma maneira de organizar o acervo.

 

J.D. Salinger: espiritual hipocondríaco urinoterapeuta de si mesmo.

O autor de O apanhador no campo de centeio, obra-prima para os adolescentes, parece ter sido escrito por alguém que os bem conhecia. Ou que pelo menos os entendia. Mas não foi esse o retrato pintado pela sua filha Margaret, em livro publicado em 2000. Margaret diz que Salinger era autoritário, rabugento, rígido e racista.

“Para meu pai, todas as pessoas que falam espanhol são lavadeiras porto-riquenhas”

Salinger continua escrevendo em New Hampshire, onde, conta-se, ele possui cofres do tamanho de salas cheios de manuscritos de potenciais romances. Mas vez ou outra muda de idéia acerca de novas publicações, afinal, o livro que inspirou Mark Chapman continua vendendo 250 mil cópias por ano.

Margaret conta, também, que seu pai adorava beber a própria urina. Tá, não sei se adorava, mas ele vivia de um lado para outro da casa com um copo de urina na mão. Fins terapêuticos, claro, ninguém saboreia urina. A urinoterapia – praticada na Índia há mais de cinco milênios – tem poder curativo, além de branquear os dentes. Salinger também praticava homeopatia, acunpuntura, e se envolveu com Cientologia e Ciência Cristã. Tinha seu próprio aparelho bronzeador, que utilizava para manter a pele marrom escura. Exceto quando ele ficou com uma tonalidade bem esverdeada após uma dieta macrobiótica.

Salinger desenvolvia uma medicina alternativa à medicina alternativa. Possuía métodos homeopatas próprios – e alternativos – para um simples refriado. A sua técnica de acunpuntura era extremamente sofisticada: ao invés das tradicionais agulhinhas, Salinger utilizava pontudas cavilhas de madeiras. Margaret descrevia o tratamento agonizante: é como se tivesse um lápis pontudo sendo enfiado na pele. O filho Matthew, quando da ocasião de um leve resfriado, foi vítima de Salinger e seus espetos. Ele tentara enfiá-los nos ossos do dedinho do pé do rapaz.

Espiritualmente, Saliger também foi bastante eclético. Nasceu Judeu, experimentou Zen-Budismo, Hinduísmo Vedântico e cristianismo carismático. Ele chegou a adquirir o seu próprio osgasmatron, uma caixa de madeira e metal para um só ocupante, inventada por Wilhelm Reich, que supostamente serviria para absorver o orgônio, ou essência vital do universo. O fim do inventor do troço: cadeia.

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