Esse lugar nebuloso e cinzento que se convencionou chamar de blogosfera nos surpreende a cada dia. Estão sempre surgindo novos rankings, concursos, disputas internas, tudo no sentido de amaciar alguns egos e fornecer mais um punhado de cliques. Andy Warhol diria que, no futuro, todos teriam seus 15 minutos de fama. Talvez ele tenha previsto o surgimento do AdSense e dos posts pagos. Isso por que – e aqui explico a relação que faço – toda essa vontade de ser bem “visitado” tem um objetivo: atrair a atenção de anunciantes. Anunciantes que, por um punhado de dólares, farão com que os blogueiros famosos defendam com unhas e dentes um produto que sequer acreditam.
Então é mais ou menos assim: você cria um blog, se esforça para fazer alguns posts legais, sobe em dois ou três rankings, escolhe pessoas estratégicas pra seguir no twitter, começa a se relacionar com a elite egosférica e, mais dia menos dia, você estará defendendo uma fábrica de amianto por fabulosos 100 reais (Dahmer, obrigado). Esse seu espaço, o blog, que poderia ser utilizado como ambiente de exposição de idéias próprias, de opinião e de contestação ao status quo, vira uma longa manus das grandes empresas, as mesmas que já compraram a “consciência” da mídia tradicional. Vê onde quero chegar?
Até então nós vimos a blogosfera se aproximando do modelo de mídia tradicional: o anunciante paga e você mostra, no meio da novela (aquele seu post) um produto fantástico da Natura. Ou seu tecladinho sem fio da Nokia. Ou o celular que você recebeu pra testar. Ou calcinhas bem fofas. Believe me, existem blogs hoje em dia que transformaram todo o seu conteúdo – e eu não tou exagerando aqui – em jabá. Não preciso falar do Interney, do Papo de Homem ou do Enloucrescendo aqui. Eles são hors concours.
Depois vimos a blogosfera se aproximando de outro modelo não menos louvável: os políticos. Basta seguir dois ou três figuras de maior relevância (relevância, na blogosfera, significa número de cliques, que fique claro) no twitter, ou mesmo ter os guris no seus feeds que você verá. Eles estão sempre pedindo seu voto para subir em algum ranking. E os meios que utilizam pra isso também são tristes: desqualificação do oponente e compra de votos. Não há nenhum episódio de pistolagem por que, até então, os publiciotários ainda pagam bem barato pela opinião dos blogueiros. Me sinto como se tivesse presenciando uma eleição no interior do Maranhão.
Para não dizerem que exagerei: a dona do Pri em Forma – esse belo blog de header pixelizado, colunas estreladas e posts multicoloridos e multiformatados, no melhor estilo web 1.0 (eca!) - está sorteando brindes e prêmios para quem votar nela. Teve gente que defendeu, la pelo twitter, esse tipo de prática. Dizem: é a mesma coisa de um político que, para se eleger, promete obras! Minha nossa senhora. Daí a Ana, do Olhômetro, se indispôs com a Pri. Chamou o blog dela de tosco, coisa e tal. Particularmente eu gostaria de ver as duas brigando no gel, mas não é ótimo de ver as pessoas se matando por causa dos tais rankings?
Este último caso ocorreu no recente concurso do BestBlogsBrazil (com z mesmo, caríssimos). É um concurso um tiquinho mais organizado do que o ranking BlogBlogs, mas ainda assim é vergonhoso. Em primeiro lugar, o regulamento porcamente elaborado não faz qualquer menção a compra de votos (nossa lei eleitoral está na frente aqui!), o que os obrigou a fazer um post, a essa altura do campeonato, para tentar contornar a situação. O problema é que o dano já está feito. Então assim, pouco a pouco, algumas pessoas vão abandonando a competição e tudo fica mais sem graça do que sempre foi.
No caso do ranking do BlogBlogs, que utiliza como critério para subir no ranking a quantidade de links recebidos por demais blogs, uma turma se reuniu e criou um “meme” chamado “Mamãe, quero subir no ranking BlogBlogs“. Então todos sairam linkando uns aos outros, o que causou um transtorno geral nos big players, alguns chegando a abandonar o ranking mas sob o pretexto de que “não admitiam que o blog de fulano tivesse sido sacaneado” (Cardoso, sobre Inagaki). Hoje em dia, continuamos vendo alguns blogueiros que utilizam do mesmo expediente pra subir no ranking, com a diferença que são maquiados pelo conteúdo e com um sorteio aleatório. É o caso desse post do Interney, em que ele sorteia ingressos para a CampusParty, bastando linkar (veja só!) o post e avisá-lo por e-mail. Não é à toa que ele ta em primeiro no ranking BlogBlogs. Qual a diferença? E é esse o conteúdo que você quer ler?
Então por que esses rankings e concursos ainda são tão valorizados? Pela blogosfera, pelo simples fato de que há uma oportunidade de subir no pagerank e ter mais visitantes, o que atrai um anunciante ou outro. Para os anunciantes, por que eles conseguem vislumbrar alguns guris dispostos a se vender por módicos 100 reais, dando uma certa visibilidade aos seus produtos. Mas ainda há quem defenda que esses rankings funcionem como um marketing boca a boca, onde os que tem conteúdo mais interessantes se tornam mais conhecidos. Bullshit.
Esses rankings não têm – como diz Pierre Bourdieu – a fala autorizada. Eles não são referência quando a busca por conteúdo interessante. Isso por que, não raro, todos estão repletos de posts pagos bem bestas mesmo. Basta dar uma olhada na primeira página do ranking. Se eu tivesse procurando por um conteúdo interessante e inteligente, o último lugar que veria seria num desses rankings fajutos. Conteúdo, para mim, não é um post pago sobre cosméticos.
Eu vejo vocês, probloggers, que se orgulham dos seus publieditoriais (um nomezinho bonito para post pago) e pageviews (atingidos com tanto esforço, com tanto conteúdo, oh!), como pessoas deslumbradas com pouca merda e acometidas de uma arrogância desnecessária. Caros evangelizadores de social media, me desculpem, mas atingir um lugar significativo nessa tal de blogosfera é algo que demanda tempo e só um pouquinho assim de inteligência. E depois, utilizar o lugar que atingiu para vender a sua opinião, é bem pouco digno do orgulho que vocês sentem. Aguardo ansiosamente o dia em que os publiciotários descobrirão que não adianta gastar esses trocados com vocês.
Vocês me diriam: foda-se, tou ganhando dinheiro. It’s all about the money, isn’t it? Encham a boca pra falar que estão ganhando dinheiro vendendo suas opiniões.
Time to wake up. Vocês não estão com essa bola toda.




9 Comments
Eu sempre achei que grana era consequencia. Tipo juntar fome com vontade de comer. Ter leitor é meu objetivo final, e não aumentar público pra ter anunciante.
Mas tudo bem, porque eu não me encaixo na descrição final aí, o negócio de ‘vender opinião’ e tal, então vou direto pro assunto que me diz respeito.
Quanto ao negócio com o blog do Priemforma, realmente é patético ficar brigando por ranking. Mas eu nem queria briga, odeio essas polemicas bestas. Se soubesse que alguém ia cagüetar pra menina (que ficou brava por causa do ‘tosco’, e não por causa do resto), nem teria dito.
De qualquer forma, no final eu saí beeem cética quanto a rankings e concordando contigo. Porque:
1. minha meta é o seguinte, o blog tem que ser divertido, descompromissado. Diversão. Qdo eu tiver esquentando a cabeça com coisas relacionadas ao blog saí do meu propósito e de4vo colocar o pé-no-freio; encanar com ranking está incluso.
2. qual o mérito de ganhar (ou o ônus de perder) uma competição em que as pessoas podem oferecer premios em troca de votos? e por mais que o ‘BBB’ tenha proibido as promoções, e os votos que JÁ foram arrecadados?
Me orgulhava de dizer que nunca liguei pra ranking nenhum (BlogBlogs incluso) e fiz um mimimi idiota por causa de algo que sim, está errado, mas não merecia metade da atenção que recebeu.
Vivendo e aprendendo. Logo… vc tem toda a razão.
Bj
Cara, gostaria de parabenizar o blog, nesses tempos de jabá e estrelismo, não há mais aquela idéia de blog pelo blog, pela idéia, “O Blog Morreu” como dizem por aí, ou é só uma crise. no geral, com um site relativamente novo seus textos parecem ter uma coesão e inteligência que é dificil de ver hoje em dia. Muito Bem.
Endosso.
A “Blogosfera” é um grupo de 30 ou 40 pessoas. O restante ainda não chegou lá ou já transcendeu esse nível.
E pensar que em 2002 nego achava ruim quando blogs eram iguais a diarinhos.
Quem é o autor dessa tirinha cara? E quanto ao texto, pow…concordo em tudo, mas eu sinceramente não me importo com os blogs pagos, a maioria eu deixei de acompanhar.
O autor da tirinha é o André Dahmer po, dos Malvados. Quanto aos blogs pagos, bem, é sempre bom acompanhar pra saber o que NÃO deve ser feito.
=D
Ver alguém indo contra a corrente de “probloggers” (um mero eufemismo para “blogueiros-celebridade”, o que eu acho patético, por sinal) é bem raro nos dias de hoje. Haja peito e bons argumentos para falar sobre isto. E você o faz muito bem. Meus parabéns.
Ah é, não tinha reconhecido o traço do Malvado.
Não parei para pensar nesse tipo de coisa, meu blog está longe desse tipo de pretensão (e ainda bem!) mas achei, ao menos, que você tem uma opinião muito bem fundamentada.Bjitos!
Assino embaixo! Achei até que teria altas críticas nos comentários, mas tá tranquilo aqui (eu já fui enxovalhada por muito menos). Na maioria dos blogs fica muito na cara quando um post é pago, simplesmente porque é impossível escrever naturalmente quando o post bem por “obrigação” (por ter sido pago). Já abandonei blogs queridíssimos depois de ler posts pagos, senti que me faziam de idiota. Esses ranks, nem imagino como funcionam, mas quando resolvo visitar algum blog conhecido não passo do segundo post, simplesmente não tem conteúdo. Acho que pelo menos as pessoas deveriam assumir que vendem seu espaço (assim como você afirma que não vende) porque tem muita gente ingênua que acredita e apóia esse tipo de comportamento (essa coisa de pedir votos pra isso ou aquilo eu acho PATÉTICA!) e aí fica cada vez mais difícil achar conteúdo de verdade, porque parece que todo mundo está se rendendo ao “dinheiro fácil”… E tenho até medo de elogiar, no meu blog, algo que gostei, e acharem que ganhei algo por isso. Não, nunca ganhei (nem pretendo ganhar) um centavo com meu blog…
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