Entendendo a piada

Eu frequento isto que se convencionou chamar de blogosfera há pouquíssimo tempo. Como leitor de blogs, nem tanto, acho que há uns 8 anos. Mas como proprietário de blog – blogueiro é senhora sua mãe – só há uns dois meses. E nesse pequeno período, já presenciei três acontecimentos que merecem destaque: a queda do ranking do BlogBlogs, a publicação de Blogs na Época e a “entrevista” com blogueiros (esses vocês podem chamar assim) no Jornal da Globo. Nos dois primeiros episódios, minha opinião ficou restrita a umas duas tuitadas, já que estava sem tempo. Mas essa última não vai passar batido.

A Globo convidou um seleto grupo de blogueiros para “falar” sobre a nova mídia numa reportagem de 3 minutos no Jornal da Globo. O elemento central da entrevista dizia respeito à possibilidade de ganhar dinheiro com blogs na internet. Na fórmula, bem simples: os blogueiros produzem o conteúdo, a massa gosta desse conteúdo – o que já é um simples motivo para questionar a sua qualidade -, o blog ganha visibilidade e o anunciante paga. Mas vale dar uma olhadinha no vídeo:

 

 

 

No vídeo, os blogueiros aparecem como os arautos da revolução. A revolução da nova mídia que, supostamente, deveria deixar a velha mídia de cabelo em pé. É o que vemos a partir do depoimento do Graveheart: os nerds não estão mais à margem da sociedade, agora eles a definem. Interney arremata: o anunciante paga minhas contas. Com 43 milhões de pessoas acessando a internet, como isso não é motivo o suficiente para deixar a velha mídia de cabelo em pé?

Toda a reportagem não passou de uma piada de mal gosto e os blogueiros todos cairam.

Vejamos essa situação:

Berlusconi, quando da visita de Lula à Itália nos dias 10, 11 e 12 de novembro, tinha a intenção de levar nosso querido presidente à Milão, em um jantar com os jogadores brasileiros que trabalham por lá. Lula, quando soube das intenções de Berlusca, matou a charada: o que o poderoso italiano queria demonstrar, sem muitos excessos e com uma peculiar sutileza, era que os jogadores poderiam ser brasileiros, mas trabalhavam para ele, o mais rico e poderoso da península. Lula então recusou-se a ir a Milão, o que não impediu Berlusconi de levar os craques à Roma. Ficou irritadíssimo, o presidente.

Conclusão?

É muito simples: a velha mídia convidou os revolucionários – para quem the revolution will be no televised – para mostrar que ainda são os mais poderosos. Muito ao contrário do que a arrogância da egosfera prega: a velha mídia não tem medo de vocês, e vocês são muito pequenos perto dela. E ela fez isso da maneira mais sutil possível: os arautos da revolução foram submetidos à leitura de um texto elaborado pela emissora. Os mesmos independentes, que produzem conteúdo e gozam de um imenso prestígio na blogosfera, foram submetidos ao papel de porta-voz do conteúdo produzido por outro.

A velha mídia continua dando as cartas. E os dois últimos meios tradicionais que deram espaço aos blogueiros vieram pra mostrar isso: os caras adoram aparecer na televisão e na revista impressa (Época), ao mesmo tempo que pregam a morte das mesmas. São as contradições da egosfera…

No final das contas, who’s your daddy?

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6 Comments

  1. Posted 14/12/2008 at 9:13 pm | Permalink

    Estudo jornalismo, adoro televisão, faço reportagens para veículos de mídia tradicional – incluindo TV -, sou blogueiro e estou nessa reportagem.

    Uma das coisas que aprendi com tudo isso é quão perigoso pode ser dizer algo sem ter base, sem ter informação para tal.

    Quem disse que qualquer um de nós foi “porta-voz do conteúdo produzido por outro”? Tudo que lemos na matéria foi uma frase, quando estamos com roupa diferente, falando para uma webcam. E, ainda assim, fomos nós mesmos que redigimos as frases, cada um a sua, sem qualquer orientação.

    Na boa, mais cuidado com o que é dito. Não trate achismo como se fosse fato. Não é.

    Além de que esse pensamento “mídia tradicional x blogosfera” é tão velho que pouca gente ainda usa. Tem muita gente que, ao contrário, está é lucrando com essa parceria.

    Particularmente, acho que essas contradições que você aponta já não existem mais. Não é a velha mídia ou a nova mídia que dá as cartas: está tudo integrado e ninguém prega a morte de ninguém. Todos buscam a melhor forma de complementar os meios, beneficiando o consumidor do conteúdo.

    Assim, a contradição fica em ter opinião sem ter informação. Como falar daquilo que não se sabe, não é?

  2. Roberto Almeida
    Posted 15/12/2008 at 12:23 pm | Permalink

    Obrigado pelo comentário, Gustavo. Mas fica bem difícil acreditar que o conteúdo foi produzido por vocês e vocês ainda optaram por ler – e de uma forma altamente mecânica.

  3. Posted 15/12/2008 at 8:16 pm | Permalink

    Opa! Me avisaram de algo que você disse no twitter, mas como não tenho mais isso, então nem tenho como responder. Só queria saber o que fiz de tão ofensivo. Se foi algo pessoal, venho aqui me desculpar.

    Abs

    Gravata

  4. Posted 17/12/2008 at 1:01 pm | Permalink

    No meu caso o blog é um lazer, acho deliciosa a idéia de ter alguém me lendo!

    Muitas das estórias que conto são minhas. Algumas vezes conto ali o que não tenho coragem de contar para alguém ao vivo.

    bjoks

  5. Posted 18/12/2008 at 11:51 pm | Permalink

    A discussão que você levanta é bem válida. Mas o tom “esquerdinha festiva” quase reacionário quebra seu valor.

  6. Posted 14/01/2009 at 4:33 pm | Permalink

    Mandou bem ;]

One Trackback

  1. By  LZ.COM_  JRNL on 02/01/2009 at 11:48 pm

    [...] leia isto – Entendendo a Piada [...]

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