Então, todo mundo já conhece o Kindle. Meu objetivo com a assertiva anterior foi – como determinados conferencistas que, ao iniciarem sua fala, afirmam que “todos aqui já leram Feyerabend” – nivelar o debate e fazer com que alguém que não saiba o que é o Kindle se sinta deslocado. Se tu não sabe o que é o Kindle, lê aqui antes do que se trata e vai por mim, nunca, sob nenhuma hipótese, te guia pelo que diz a Época de algumas semanas atrás.

Calma, o problema não está na suposição de que o último livro do Paulo Coelho que tu comprou foi em formato físico e que a partir de agora tu vai ler o cara direto do Kindle. O problema é acreditar que o Kindle realmente ameaça o livro DE PAPEL.
Mas vejamos. O que o Kindle nos oferece? Ele guarda até 1500 livros, é pouco mais fino que uma revista, baixa livros diretamente da Amazon por uma rede 3G. São umas três centenas de milhares de livros disponíveis e não me dei o trabalho de pesquisar quais são os títulos em português, mas tenho a leve impressão de que não são muitos. Os preços dos livros variam, mas parecem estar na faixa das 10 doletas. No começo do ano, alguns livros ultrapassaram essa faixa e outros chegaram a custar mais caro do que sua cópia física, o que levou os consumidores a se manifestarem no maior estilo #forasarney. O preço do Kindle é de U$ 259,00, o que convertendo para o Real e somando os impostos chega a quase R$ 1.000,00.
Os mais afobadinhos da era digital (argh) e masturbadores de gadgets acham que o Kindle deu um golpe de misericórdia nos livros e que a ordem é de não ressucitar. Desculpa, mates, mas vocês estão enganados. Mais fácil vocês morrerem antes dos livros.
O Kindle apresenta suas vantagens, sim. Dentre elas, quase todas estão ali nos features da bagaça. É pequeno, é fino, tu carrega até 1500 títulos (a maioria das pessoas não tem 1/3 disso na biblioteca de casa), e tem tudo na mochila assim que precisar. É um quebra-galho danado. Mas tu não vai pagar quase mil reais por um quebra-galho se não for absurdamente necessário. Mais fácil pagar 1000 reais em 20 livros de 50 do que 1000 reais em livro algum, só no leitor. E porque o livro te proporciona algumas coisas que um leitor de ebooks não te proporciona, dentre elas o prazer de ler.
Para um leitor voraz e bom comprador de livros, existem alguns prazeres que são insubstituíveis. E o público-alvo do Kindle é esse, sim. E é para esses que estou falando. Quem mais estaria interessado em ter 1.500 ebooks senão um apaixonado pela leitura?
Primeiro, na escolha do livro: pegar, folhear, ler a orelha, comparar com outras obras do mesmo autor que estejam na mesma prateleira, encontrar imediatamente do lado um livro igualmente interessante, sentar numa poltrona próxima e tomar um espresso. Nada disso seria feito se tu tivesse em casa ou no escritório, com um pedaço de plástico e escolhendo livros pela internet. Que me digam os entusiastas da leitura: vocês também não sentem que pularam alguma etapa quando compram livro à distância?
O outro está no próprio uso do livro: tu lê, grifa partes interessantes, faz algumas anotações, cola um post it, deixa na prateleira e dois anos depois pega o mesmo livro, relê as anotações, tem novos insights, escreve alguma coisa por cima, deixa lá denovo.
Algumas pessoas insistem em argumentar que a mesma coisa ocorreu com o CD há alguns anos atrás, quando diante do mp3 e dos mp3 players. Não, não é a mesma coisa. Explico: o mp3 tinha, teve, tem potencial pra substituir o CD porque o salto não é tão grande se comparado com as vantagens obtidas. Atribuo isso a quatro fatores: a gratuidade (quem nunca baixou 10 álbuns de graça que atire a primeira pedra), a pequena diferença na qualidade, os poucos prazeres de que se abre mão e a facilidade do consumo.
Tu não grifa um CD. Tu não escreve observações na margem da faixa 14. Tu não toma um espresso enquanto folheia páginas de um CD que estás prestes a comprar. Sim, se tu migrar para o mp3 tu acaba suprimindo o prazer de escolher CDs e de colecionar CDs, claro. Alguns sentem diferença na qualidade, eu não. Em compensação tu podes transportar todos no bolso e, quando sentir a vontade de escutar Dogs (Pink Floyd) ou Saigon (Emílio Santiago), elas estarão nas tuas mãos.
Isso ocorre pela facilidade com a qual se consome música. Quem aí sente vontade de ler Verdade e Método (Gadamer) e depois A vida como ela é (Nelson Rodrigues) enquanto lancha em algum lugar?
Como bem lembrou a Marina, se os livros algum dia morrerem, isso vai acontecer por falta de leitores, não por causa dos ebooks. Os ebooks já existem há um bom tempo e, melhor ainda, de graça. Mas não me recordo de alguém dizendo que deixou de comprar livros porque pôde baixar pela internet. Alguém deixa de comprar livros porque pode tirar Xerox. Denovo a questão do preço. Tu também podes me responder: é porque ler na tela do computador é um saco, já a tela do Kindle é propícia para a leitura, yada yada yada. Desculpa, seu argumento é inválido. Se tu consegues passar 5h lendo no msn e no twitter, talvez o problema não esteja na tela do computador, mas nas tuas prioridades.
De mais a mais, com a mesma autoridade dos que proclamam a morte dos livros, eu proclamo aqui a morte do Kindle. Quem tá comigo?
Tonkiel 15:16 on 10/12/2009 Permalink
Se acrescentar um ovo frito, existe a possibilidade de ficar mais gostoso?
Abs